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Palavras são armas

“a luta de classes é a mãe de todas as lutas”

Palavras são armas

“a luta de classes é a mãe de todas as lutas”

Uma certa esquerda

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Uma certa esquerda

Os acon­te­ci­mentos re­centes em Cuba trou­xeram de novo à tona a exis­tência de uma certa es­querda, que pelo menos em ma­té­rias de po­lí­tica in­ter­na­ci­onal se dis­tingue da di­reita pela re­tó­rica uti­li­zada e pouco mais. Uma es­querda sur­gida com a in­tenção de «co­meçar de novo», que se propõe a «travar a luta toda», mas que não atribui qual­quer valor à so­be­rania dos Es­tados e aos di­reitos dos povos e par­tilha com o im­pe­ri­a­lismo uma mes­mís­sima con­cepção de de­mo­cracia.

Assim, quando Cuba se en­con­trava (li­te­ral­mente) na mira dos EUA, lá veio a con­versa das li­ber­dades e da di­ta­dura, a re­la­ti­vi­zação dos efeitos do blo­queio, o apa­ga­mento das ex­tra­or­di­ná­rias con­quistas po­lí­ticas, eco­nó­micas e so­ciais al­can­çadas pela Re­vo­lução cu­bana. Esta es­querda ga­rante não querer uma in­ter­venção contra o país ca­ri­benho, mas no es­sen­cial as­sume a nar­ra­tiva que lhe abre ca­minho.

Mas nada disto é novo. Já em 2011, nas vés­peras da agressão contra a Líbia, re­pre­sen­tantes dessa mesma es­querda vo­taram fa­vo­ra­vel­mente a re­so­lução do Par­la­mento Eu­ropeu com que se pro­curou jus­ti­ficar a cri­ação de uma zona de ex­clusão aérea na­quele país do Norte de África, aju­dando na prá­tica a le­gi­timaraos olhos da opi­nião pú­blica a trans­for­mação da NATO em Força Aérea dos re­beldes de­mo­crá­ticos anti-Ka­dafi – que, só não via quem não queria, eram afinal grupos ter­ro­ristas li­gados à Al-Qaeda e ao Es­tado Is­lâ­mico, com mal dis­far­çadas li­ga­ções às po­tên­cias oci­den­tais.

En­tre­tanto, a Líbia está des­truída e o seu povo en­contra-se à mercê de grupos ar­mados – sem se­gu­rança, sem di­reitos, sem de­mo­cracia, pra­ti­ca­mente sem país. Mas ao menos já não re­pre­senta um obs­tá­culo às pre­ten­sões do im­pe­ri­a­lismo na re­gião nem cons­titui, apa­ren­te­mente, um in­có­modo à ex­trema sen­si­bi­li­dade de­mo­crá­tica dessa es­querda.

No que res­peita a outra tra­gédia re­cente, a da Síria, a sua pos­tura foi em tudo se­me­lhante: par­ti­lhou alvos, ali­ados e nar­ra­tivas com o im­pe­ri­a­lismo, ca­valgou sim­pli­fi­ca­ções e mis­ti­fi­ca­ções, ajudou a tra­vestir mer­ce­ná­rios e ter­ro­ristas de cân­didos de­mo­cratas. O saldo desta agressão é co­nhe­cido: meio mi­lhão de mortos, mi­lhões de des­lo­cados, pro­blemas eco­nó­micos e so­ciais agra­vados. De pouco va­lerão, de­pois, as in­fla­madas pro­cla­ma­ções em de­fesa dos re­fu­gi­ados, se do que estes fogem é pre­ci­sa­mente da guerra e da des­truição às quais essa es­querda deu co­ber­tura po­lí­tica.

Por ex­plicar fica a di­fícil con­ci­li­ação entre a apre­goada con­dição de es­querda e este ali­nha­mento tá­cito com a mais brutal ex­pressão do ca­pi­ta­lismo na sua fase im­pe­ri­a­lista. E ainda a ab­so­luta falta de so­li­da­ri­e­dade com os povos ví­timas de – se­gu­ra­mente de­mo­crá­ticas – agres­sões, sejam mi­li­tares ou eco­nó­micas.

9 de agosto: Dia Internacional dos crimes norte-americanos contra a humanidade

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Ler (aqui)

«A data do bombardeamento atómico de Nagasaki pelos EUA fixa uma memória que é indispensável manter sempre viva: a dos crimes EUA contra a humanidade. Não se iniciaram em 1945, mas atingiram com os bombardeamentos de Hiroshima a Nagasaki uma atrocidade monstruosa. Prolongam-se até aos dias de hoje e a criminosa elite imperialista responsável por eles permanece no poder, quaisquer que sejam os responsáveis de turno. E ameaçam a humanidade inteira.»

Poema do ghetto branco Por Arthur Welton

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Poema do ghetto branco

Por Arthur Welton

Tradução de Luiz Francisco Rebello

1

Estrangeiro cheguei a um país estranho

onde escorrem palavras de liberdade

faladas e impressas

em muitas línguas

e difundidas

em vários comprimentos de onda.

«Estrangeiro disseram-me

tu neste país és branco»

E eis que a palavra BRANCO

foi gravada na minha testa

para que nunca esquecesse

os meios que eu devia frequentar.

 

Assim

marcado como Caim

fui admitido no ghetto

dos que são BRANCOS antes de mais nada

e HUMANOS depois

e vizinhos amáveis

prestaram-se a ensinar-me

o modo de vida americano

the American Way of Life,

mostrando-me o como e quando

do que é preciso fazer

por exemplo amar este país

em certos dias de festa nacional

e Deus ao domingo

e família

os amigos e os vizinhos

no dia de Natal

no dia de Acão de Graças

acreditar em Deus

sem fazer perguntas a seu respeito

e na Democracia

sem fazer perguntas também

e a maneira de ser

um sólido partidário da Livre Iniciativa

e a favor da igualdade

sem cometer gaffes em sociedade

e a favor da Fraternidade

dando o nosso contributo

a certas obras de beneficência

e outros explicaram-me o que é a Liberdade

não sem a confundir

com toda a espécie de direitos

entre os quais o direito de nos sentirmos superiores

de conservar a raça pura

de manter os negros no seu lugar

e os judeus afastados do poder.

 

2

Ouvi

No Ghetto Branco

o silêncio dos cobardes

o suspiro dos hipócritas

a sabedoria oleosa dos fariseus

escovando os ombros

para tirar a caspa da virtude

e com o coração aos pulos

ouvi

os raros corajosos

que mais querem à liberdade

que à opinião dos vizinhos

ao seu emprego

à tranquilidade da sua vida.

 

3

O Americano Realizado:

com mais dinheiro do que precisa

e menos do que desejaria

com uma voz ribombante

uma constipação crónica

uma mulher frígida

e um terror mórbido da pobreza

da velhice  do cancro

e da solidão

com uma fé pueril

na omnipotência do dinheiro

e no seu poder de evitar os desastres

Caçador ofegante na perseguição de Mais Ainda

escrevo da virulenta obrigação

de triunfar e ser cada vez mais rico

tomando calmantes e somníferos

e cursos de correspondência

na arte da descontração

de 15 lições

(sucesso garantido ou reembolso integral):

o exemplo radioso

para a juventude do país

a glória da civilização americana.

 

Por Arthur Welton

Tradução de Luiz Francisco Rebello

In, Vértice nº 469 maio/junho 1984

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