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Palavras são armas

“a luta de classes é a mãe de todas as lutas”

Palavras são armas

“a luta de classes é a mãe de todas as lutas”

2ª canção - Daniel Filipe

DANIEL FILIPE.jpg

2ª canção

 

Três balas detiveram companheira

meu rio em seu humano curso

Não bastou a primeira

para dobrar-me a rigidez do torso

 

Mísero dia, esse ! Só na morte

cumpro inteiro o destino desejado:

impassível e forte,

juvenil e alado

 

Três balas como um sopro de agonia,

não minha ! não da pátria ! mas dos seres

desconhecidos da zoologia,

que recebem da infâmia os seus poderes.

 

Aqui nesta tarde de Maio

canto obsessivamente a minha pátria

Canto-a como quem ama ou sonha com o lar e refúgio

calmo braseiro fértil jardim litoral merecido

Canto-a de dentro para fora ignoto

descobri da ilha antes do mar viciosa

esperança lúbrico entardecer

Canto dizendo pátria olhos despertos

fecundado de amor

ó pátria local do único abandono

possível antes da hora

liberdade serena consentida

visão paradisíaca renascer da amizade

 

Canto e à minha volta o rio humano flui

adolescentes entram nos cafés

discutem-se negócios conquista-se duramente o pão quotidiano

ama-se

telefona-se

murmuram-se boatos e promessas de emprego

 

Aqui neste ano de 1962

primeiro de Maio

às três horas da tarde

 

E de novo pergunto poderei acaso dizer outras palavras

falar do tempo do relógio de ponto dos passeios aos domingos

cerrar os olhos à coreografia da violência

diariamente aprendida por entre o sal das lágrimas

 

Poderei esquecer como se não me pertencessem

seus nomes usuais

a decisão alegre e corajosa

que sombreia de medo o sono dos carrascos

Uma mulher desliza

meus olhos vão com ela presos ao ondular das suas ancas

 

Ah mas que também o amor me não distraia

que eu possa manter-me lúcido e desperto

ávido

estátua imóvel de proa

terrível como a angústia

neste primeiro de Maio de 1962

às três horas da tarde

precisamente não antes nem depois

não ontem amanhã ou dia incerto de qualquer mês e ano

mas HOJE

às TRÊS HORAS EXACTAS

numa esquina da estação do Rossio

 

Que nada possa calar o meu ódio e desprezo

nem sequer tu Amada companheira

 

E no entanto lembro o nosso primeiro encontro

retiro dele a força indispensável

para seguir cantando

atento ao mudo apelo do pequeno vendedor de jornais

aos olhos tristes da prostituta grávida

ao passo arrastado do carregador da estação

 

De mãos dadas

no jardim sob a chuva

reinventando o amor

ou

no primeiro andar de um autocarro

através da cidade sem destino preciso

 

Recordo o calor de Julho e o aroma dos pinheiros

amámo-nos sobre a terra

eram três horas da tarde como agora

tínhamos pouco dinheiro

e havia um barco à nossa espera inevitavelmente

 

Com tudo isso teço o meu próprio disfarce

com a ternura grave que me dás

alimento também certa rosa vermelha

 

Daniel Filipe

 in 'Pátria, Lugar de Exílio'

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